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O escritor

15/07/2011

Ao ler o texto de Eliana Yunes várias reflexões foram me passando pela cabeça, é verdade que nem todas relacionadas entre si, mas cada uma traduzindo uma parte sobre a importância (ou necessidade?) de escrever. Destaco apenas algumas: a motivação que tive para desenvolver este blog e que várias pessoas estão tendo ao fazer o mesmo; a necessidade de escrever como uma forma de aprendizagem; a possibilidade dos pensamentos apresentados no texto servirem como apoio aos professores na sua tarefa árdua de dar brilho aos seus ensinamentos; o mesmo para os estudantes quando fazendo suas anotações diárias desenvolvem um método próprio de ir juntando as pontas dos fios soltos com que muitas vezes os assuntos são apresentados. Achei muito bom e bem apropriado para refletirmos sobre muitos aspectos de ensino e aprendizagem. Reproduzo-o abaixo:

Escrituras

Quem toma gosto pela palavra quer ler mais e quer também escrever. Roland Barthes assinalou que há vários livros legíveis, que se oferecem à leitura e nela encerram sua contribuição ao nosso prazer e fruição. Contudo, há livros escrevíveis, que não nos abandonam sem que tenhamos tomado a palavra para lançá-la mais adiante. Quando li esta passagem, lembrei-me de um poema de João Cabral de Melo Neto intitulado Tecendo a Manhã. Ali ele diz que “um galo sozinho não tece uma manhã”. É preciso que ele lance seu canto e que outro o recolha e o lance mais adiante. Assim, no entrecruzar de fios dos cantares, o sol desperta e a manhã se estende como um tecido sobre a terra. Acho que a leitura entretecida forma o leitor quando ele finalmente tece a sua leitura/escritura barthesiana, e no gesto traça seu próprio perfil e põe sua assinatura, finalmente.

Um leitor de textos em qualquer linguagem sonha em colocar sua própria leitura em um suporte para tornar-se autor. Assim, as duas pontas do fio se aproximam e resultam no diálogo que, mesmo imperceptivelmente, todos os textos mantêm entre si. Essa trama é latente, mas será o leitor que a fará evidente. Dela desponta um fio que ele puxa para realizar sua produção pessoal, inscrevendo-se no seu contexto, na história. Por isso, a escrita depende de seus antecedentes – muita leitura, muita pesquisa – para que o gesto de criar nasça de uma falta que ainda se instale, um querer-dizer que não se reconhece como excesso, mas como suplemento que interroga, desvia e demanda de forma inesperada que o receptor não se cale.

Esse exercício, longe de ser mecânico, como tarefa escolar obrigatória, desborda o exterior e se impõe como demanda interna: o leitor quer desenhar, dizer, pintar, musicar, dançar, arquitetar o novo, como fruto de um desejo despertado tão súbito que os antigos falavam em inspiração das musas. Ver um filme, conhecer uma cidade a pé, contemplar um quadro, ler um livro podem ser práticas de leituras que façam o receptor “lembrar-se” de que tem algo mais a dizer, mesmo que sejam perguntas, discordâncias, devaneios. A escritura se propõe como comentários, ensaios, críticas, mas também como novos contos, nova ficção, criação.

(Em Tecendo um Leitor: Uma Rede de Fios Cruzados, de Eliana Yunes, Ed. Aymará)

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