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Palavras, leituras e escrita

18/07/2011

No trabalho com alunos e professores de educação superior tenho percebido que grande parte escreve e fala utilizando um pequeno vocabulário. Esta é uma limitação que em minha opinião só pode ser transposta com a leitura da boa literatura. Recomendo Nélida Piñon, escritora, professora da UFRJ e ex-Presidente da Academia Brasileira de Letras. Sua escrita flui com muita naturalidade.  De suas crônicas traduzo abaixo “O dever de sonhar”.

Convido-os a serem parceiros no ofício de viver. De aventurar-se pelo cotidiano como se lhes coubesse o dever de sonhar, de erigir catedrais, dignas aos olhos de Deus e dos homens, de mergulhar nas águas barrentas das palavras, no rodamoinho vertiginoso das emoções, nas trevas perturbadoras dos sentimentos. Em tudo enfim que, nascendo de nós, ganha nome, descrições, ao largo de um processo nem sempre fácil, mas que nos transporta ao próprio coração da existência.

Juntos aprenderemos a ler sem pressa o livro da vida. Uma leitura feita com recato, amor, coragem, sabendo de antemão que nenhum de nós é inaugural. Cada qual acrescenta escassos dados a este estranho compêndio. A fim de aprimorar a escritura dos sentimentos, a noção da justiça, a força do trabalho. Para que a viagem pela terra justifique o empenho de qualquer luta.

Através desta viagem provaremos da paciência e da paixão. Uma combinação que nos leva ao espírito que oscila entre desavisado, alegre, observador e responsável. Frontalmente desconfiados de uma realidade que merece mudança. O esforço de fazê-la a casa dos homens, dos seus ideais.

Para tanto é mister chorar quando os fatos exijam lágrimas. Quando a matéria do cotidiano bate-nos à porta. Afinal, a causa dos homens cobra irrestrita adesão. A ternura e a compaixão são compromissos da condição humana.

[…]É mister recordar que onde a alma pousa, ali está enterrada a sua imorredoura utopia. E que o espírito é mais amoroso que a carne. Cabe-lhe reclamar terras, mares, descobertas, o outro lado de Deus. Falar de si mesmo e do vizinho. Pois que cada homem é o filósofo do sue tempo. Carece de traduzir sua trajetória pessoal.

Talvez devesse proclamar que, embora não sejamos originais neste cortejo humano, segundo anunciara a nossa vaidade, somos de inesperado ineditismo. E que, só por isso, terá válido exaltar-se, dar sequência à existência.

Nélida Piñon

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