Skip to content

O que vem a ser “radical”?

20/07/2011

Muitas vezes se usa a expressão “fulano é radical” para expressar alguém que é intransigente ou algo semelhante. Literalmente, o adjetivo radical significa ir à raiz das coisas. Mas, isso também pouco esclarece. Transcrevo a  resposta de Zygmund Bauman sobre o que vem a ser ‘radical”, uma das melhores que já li.

O sociólogo Zygmund Bauman é um dos mais importantes pensadores contemporâneos. Nascido na Polônia em 1925, vive atualmente na Inglaterra, onde leciona na Universidade de Leeds.

Bauman define modernidade líquida (um de seus conceitos mais importantes) como um momento em que a sociabilidade humana experimenta uma transformação que pode ser sintetizada nos seguintes processos: a metamorfose do cidadão, sujeito de direitos, em indivíduo em busca de afirmação no espaço social; a passagem de estruturas de solidariedade coletiva para as de disputa e competição; a colocação da responsabilidade por eventuais fracassos no plano individual; o fim da perspectiva de planejamento a longo prazo, entre outros.

Atos, empresas, meios e medidas podem ser chamados de “radicais” quando eles chegam até suas “raízes”, às de um problema, um desafio, uma tarefa. Note, contudo, que o substantivo latino ‘radix’, do qual se origina o adjetivo “radical”, diz respeito não só às raízes, mas também a fundações e origens. O que essas três noções – raiz, fundações e origens – têm em comum? Dois atributos.

Primeiro: em circunstâncias normais, o material de todos os três são referentes escondidos da vista e impossíveis de serem analisados muito menos tocados diretamente. Qualquer coisa que tenha crescido em um deles, como tronco ou caules, no caule das raízes, a edificação, no caso das fundações, ou as consequências, no caso das origens, foi sobreposta sobre sua parte inferior, cobriu-a e depois emergiu escondida da visão. Por isso, tem de ser, primeiro, perfurada, as partes lançadas fora do caminho ou tomadas à parte, se se deseja um dos objetos segmentados quando pensar ou agir radicalmente. Segundo: no decurso do trilhar para esses objetivos, o crescimento desse material deve ser desconstruído, ou materialmente empurrado para fora do caminho, ou desmantelado. A probabilidade de que, a partir do trabalho de desconstrução/desmontagem das metas, emerjam todas as deficiências é alta. Tomar uma atitude radical sinaliza para a intenção da destruição – ou melhor, de assumir o risco da destruição, mais frequentemente o significado de uma destruição criativa – destruição no sentido de um lugar para limpeza, ou para lavrar o solo, preparando-o para acomodar outros tipos de raízes. A política é radical se ela aceita todas as condições e se orienta por todas essas intenções e objetivos.

(Revista Cult, ano 12, n. 138. p. 17-18)

Anúncios

From → Geral

Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: