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Universidade e o jogo político

20/07/2011

Dando continuidade aos escritos sobre  universidade, escrevi um post sobre o jogo político que ocorre em seu interior, com a participação de atores internos e externos.

Analisar uma organização do ponto de vista político é vê-la como um empreendimento constituído por redes de pessoas independentes e interdependentes, com interesses diferentes e comuns, as quais estão juntas por razões pessoais e profissionais. Nesse sentido, as organizações são compostas por coalizões e a construção de coalizões é uma importante dimensão de toda a vida da organização.

Autores como Baldigdre et al (1977), desenvolveram a tese de que as organizações universitárias podem ser estudadas como sistemas políticos em miniatura, pois apresentam a dinâmica de grupos de interesses e de conflitos semelhante aos que ocorrem nas organizações políticas, como a cidade e o Estado.

Na universidade, a prioridade é a participação e negociação, e seu processo decisório reflete muito mais um jogo político, no qual comissões e grupos emergentes funcionam e decidem a partir do conflito, negociações, coalizões e acordos, do que um processo no qual as decisões são tomadas por consenso, como em um colegiado (BALDRIDGE et al, 1977).

Zabalza (2004) salienta um outro aspecto desse processo político, que o autor sintetiza por meio do conceito de democracia, também trouxe para o interior da universidade práticas externas que acabaram por atingir um dos aspectos mais fundamentais da política científica e acadêmica que é o diálogo entre os pares. Assim se expressa o autor:

O posicionamento ideológico e os postulados políticos vinculados às possíveis interpretações desses dois princípios introduziram na universidade uma nova definição da vida institucional, dos sistemas de divisão do poder e, de modo indireto, das formas de relação. Isso quer dizer que afinidades profissionais ou científicas que constituem os componentes básicos da relação interna da universidade sofreram um desequilíbrio e estão sujeitas a crises por causa das novas alianças ideológicas e políticas (ZABALZA, 2004, p. 74).

Apesar da existência de comissões e grupos emergentes, as grandes decisões estratégicas universitárias são tomadas formalmente nos órgãos colegiados. Dessa forma são construídos o Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI), o Plano Político-Pedagógico (PPI), as reformas estatutárias e regimentais, as regras dos processos eleitorais, as normas dos concursos públicos, as formas de avaliação dos professores, por exemplo. É certo considerar que essas decisões são tomadas por consenso de maioria caracterizando um modelo colegiado, mas errado em supor que a política não esteja presente em todos os momentos desse processo e que, na maioria das vezes, o colegiado apenas legitima decisões já tomadas.

Para a administração, a democracia apresenta-se como um desafio no qual a experiência e a reflexão na prática do gestor tornam-se parte permanente dos processos organizacionais. Entre os professores, a democracia diminui em tese o fosso entre os mais experientes e os novatos, mas não diminui a prática individualista e restritiva, segundo Zabalza (2004, p. 77), “cada um pode fazer o que melhor lhe convém”. Entre professores e alunos a democracia, em seus extremismos, tem causado situações conflituosas, prejudicando o processo acadêmico e administrativo.

Outro aspecto relacionado à temática é o poder adquirido pelos atores do contexto político, econômico e social em que a universidade está inserida, como os governos, políticos, empregadores, grupos sociais, entre outros, capazes de influenciar o funcionamento da universidade e afetar um de seus principais valores, a autonomia. Como exemplos podem ser destacados: propostas de reformas universitárias centralizadas, mudança na legislação por meio de portarias, interferência dos governos nos processos eleitorais para reitores, interesse de deputados e senadores na criação de novas universidades, pressão de prefeituras para instalação de pólos universitários, pressão da sociedade por políticas afirmativas, criação de novas vagas, abertura de cursos com maior empregabilidade, e assim por diante.

Nesse contexto do formal e do informal, do interno e do externo, a gestão universitária tornou-se uma espécie de pêndulo no qual, paradoxalmente, os dirigentes buscam equilibrar as forças políticas muitas vezes opostas, mas que representam a atual realidade da universidade. Mas, para isso precisam desenvolver características de liderança, tema do próximo post.

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From → Educação

2 Comentários
  1. NeoGnose permalink

    Parabéns pelo excelente Blog!

    Estarei lendo-o rotineiramente.

    Aproveito o ensejo para ventilar um tema que tangencia essa postagem especificamente, embora não de todo, menos no aspecto estritamente administrativo e todo o jogo político inerente, mas mais no sentido do vício do nosso sistema de produção científica, o que não deixa de fazer parte de um contexto político mais estrutural, não só da academia brasileira, mas, sobretudo, do nosso sistema de CT&I.

    Para propiciar mais substância à temática, que espero que possas em algum momento externalizar tua opinião mais do que bem vinda, deixo como sugestão os textos enlaçados abaixo:

    1- Feudalismo Acadêmico: http://www.trezentos.blog.br/?p=6045

    2- Nicolelis: “Einstein não seria pesquisador A1 do CNPq”:
    http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/nicolelis-diz-que-sofreu-sabotagem-nos-bastidores.html

    3- Nicolelis lança manifesto da Ciência Tropical: “Ela vai ditar a agenda mundial do século XXI”:
    http://www.viomundo.com.br/entrevistas/nicolelis-lanca-manifesto-da-ciencia-tropical-vai-ditar-a-agenda-mundial-do-seculo-xxi.html

    De resto, desejo sucesso virtual e real ao blog!

    Bem vindo à Blogosfera!

    Atenciosamente,

    Ézyo Lamarca da Silva.

    • Caro Ézyo

      Obrigado pelo apoio.
      Sobre a questão central de seu comentário. A produção e a difusão da pesquisa científica e do conhecimento resultante é um jogo político também. Já afirmava isto Thomas Kuhn, quando definiu o conceito de paradigma como aquilo que os membros de uma comunidade partilham. Estar fora dos grupos reconhecidos dificulta e muito a participação em publicações, congressos etc.. Mas, o que é mais grave, impede que idéias ou pressupostos diferentes possam ser debatidos.
      No caso brasileiro, como você afirmou, ainda existe um sistema nacional de ciência e tecnologia que atua de forma determinística sobre as ações dos agentes, sejam univeristários ou não.
      Obrigado também pelas dicas dos links. Creio que o blog tem também essa finalidade, difusão de conhecimento.

      Até mais

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