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Sistema educacional segundo Saviani

26/08/2011

Para o educador interessado na área de sistema educacional, o livro de Dermeval Saviani –    “Educação brasileira: estrutura e sistema” – é uma leitura obrigatória. Transcrevo abaixo um trecho que considero essencial (p. 83-87).

Como se pode sistematizar a educação

Levando-se em conta a estrutura do homem tal como emergiu da descrição já efetuada, verifica-se que a educação, enquanto fenômeno, se apresenta como uma comunicação entre pessoas livres em graus diferentes de maturação humana, numa situação histórica determinada: e o sentido dessa comunicação,  a sua finalidade é o próprio homem, quer dizer, a sua promoção. A educação, assim considerada, é encontrada em todas as sociedades: de maneira simples e homogênea, nas comunidades primitivas; de modo complexo e diversificado, nas sociedades atuais. Aparece de forma difusa e indiferenciada em todos os setores da sociedade: as pessoas se comunicam tendo em vista objetivos que não o de educar e, no entanto, educam e se educam. Trata-se, aí, da educação assistemática: ocorre uma atividade educacional, mas ao nível da consciência irrefletida, ou seja, concomitantemente a uma outra atividade, esta sim, desenvolvida de modo intenciona. Quando educar passa a ser objeto explícito de atenção, desenvolvendo-se uma ação educativa intencional, então tem-se a educação sistematizada. O que determina a passagem da primeira para a segunda forma, é o fato de a educação parecer ao homem como problemática: ou seja, quando educar se apresenta ao homem como algo que ele precisa fazer e ele não sabe como fazê-lo. É isto o que faz com que a educação ocupe o primeiro plano na sua consciência, que ele se preocupe com ela e reflita sobre ela. Assim, a educação sistematizada, para ser tal, deverá preencher os requisitos apontados em relação à atividade sistematizadora em geral. Portanto, o homem é capaz de educar de modo sistematizado quando toam consciência da situação (estrutura) educacional (a). capta os seus problemas (b), reflete sobre eles (c), organiza meios para alcançar os objetivos (e), instaura um processo concreto que os realiza (f) e mantém ininterrupto o movimento dialético ação-reflexão-ação (g). Este último requisito resume todo o processo, sendo condição necessária para garantir sua coerência, bem como sua articulação com processos ulteriores. Pois o modo de existência do homem é tal que uma práxis que se estrutura em função de determinado(s) objetivo(s), não se encerra com a sua realização, mas traz a exigência da realização de novos objetivos, projetando-se numa nova práxis (que só é nova pelo que acrescenta à anterior e porque a pressupõe; na realidade prolonga-a num processo único que se insere na totalidade do existir).

Sistema Educacional

Assim como o sistema é um produto da atividade sistematizadora, o sistema educacional é resultado da educação sistematizada. Isso implica, então, que não pode haver sistema educacional sem educação sistematizada, embora seja possível esta sem aquele. Sócrates, por exemplo, exerceu atividade educacional sistematizada; todos os requisitos apontados acima foram preenchidos pela sua ação educativa. Não se pode afirmar, entretanto, que Sócrates tenha construído um sistema educacional. Isto pode ocorrer porque a atividade sistematizadora pode ser reduzida a uma tarefa individual. O sistema, porém, ultrapassa o indivíduo. Com efeito, os indivíduos podem agir de modo intencional visando, contudo, objetivos diferentes e até opostos. Estas ações diferentes ou divergentes levarão, é verdade, a um resultado comum; este não terá contudo, um caráter de sistema, mas de estrutura. Isto não quer dizer que se trata de um resultado irracional, incompreensível, sem sentido. Basta empreender a análise da estrutura passando do produto ao modo como foi produzido e o processo se tronará compreensível, sua racionalidade será posta em evidência. Embora racional e compreensível é, no entanto, um resultado não intencional. Consciede com aquilo que Vázques denominou “produtos inintencionais de uma práxis intencional”.

Ora, o sistema – já que implica em intencionalidade – deverá ser um resultado intencional de uma práxis intencional. E como as práxis intencionais individuais conduzem a um produto comum inintencional, o sistema educacional deverá ser o resultado de uma atividade intencional comum. Mas como se poderá passar da atividade intencional individual à atividade intencional comum? É aqui que entra o papel da teoria. Sem uma teoria educacional será impossível uma atividade educacional intencional comum. Com efeito, o homem comum, imerso no cotidiano, é incapaz de ultrapassar o domínio do prático-utilitário para perceber as implicações e consequências de sua própria atividade prática. A consciência que tem da práxis é, mesmo, um obstáculo à ação intencional comum, uma vez que o leva a desprezar a teoria. Para ele, a prática se basta a si mesma; se surgem problemas, a própria prática já apresenta um relatório satisfatório de soluções. A atividade teórica é o não-prático, portanto, inútil; mais ainda: é o antiprático, pois introduz complicações, altera a sequência “natural” dos acontecimentos, quebra a rotina, causa transtornos.

Assim, para se ter um sistema educacional – que evidentemente deverá preencher os três requisitos apontados, a saber: intencionalidade (sujeito-objeto), conjunto (unidade-variedade), coerência (interna-externa) – é preciso acrescentar às condições impostas à atividade sistematizadora (educação sistematizada), esta outra: a formulação de uma teoria educacional. Reduzindo-se os requisitos da educação sistematizada a dois pontos fundamentais, pode-se, enfim, determinar as condições básicas para a construção de um sistema educacional numa situação histórico-geográfica determinada; são elas:

a)      Consciência dos problemas da situação;

b)      Conhecimento da realidade (as estruturas);

c)       Formulação de uma pedagogia.

 

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