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Poder e liderança em organizações públicas

05/09/2011

O tema da gestão tem sido muito discutido quando o assunto é a administração das organizações do setor público brasileiro. Os administradores, evidentemente, defendem uma administração mais profissional, na qual, antes dos critérios políticos, os critérios técnicos sejam considerados.

Devo afirmar, primeiramente, que concordo com a posição dos administradores. Porém, é preciso salientar que a administração pública é um “campo minado”, em que a existência de um ‘balanço’ técnico-político é critério indispensável para o seu pleno funcionamento.

Nesse sentido, vou escrever uns dois posts sobre poder e liderança em organizações universitárias, como uma forma de explicitar algumas peculiaridades desse ambiente e melhor compreender como ocorre esse ‘balanço’. Este escrito também é a continuação de post anterior sobre processo político em universidades.

Uma primeira característica marcante do contexto político, econômico e social em que a universidade brasileira está inserida é o poder adquirido pelos agentes como os governos (em todos os seus níveis), políticos, empregadores, grupos sociais, entre outros, capazes de influenciar o funcionamento da universidade. Como exemplos podem ser destacados: propostas de reformas universitárias centralizadas, mudança na legislação por meio de portarias, interferência dos governos nos processos eleitorais para reitores, interesse de deputados e senadores na criação de novas universidades (agora de presidente e presidenta), pressão de prefeituras para instalação de pólos universitários, pressão da sociedade por políticas afirmativas, criação de novas vagas, abertura de cursos com maior empregabilidade, e assim por diante.

Nesse contexto do formal e do informal, do interno e do externo, a gestão universitária tornou-se uma espécie de pêndulo no qual, paradoxalmente, os dirigentes buscam equilibrar as forças políticas muitas vezes opostas, mas que representam a atual realidade da sociedade brasileira.

Forma-se um perfil compreensivo do líder político que mobiliza fontes de poder disponíveis via estratégias políticas para influenciar resultados ou decisões. Assim, por exemplo, adquire-se a informação, gerenciam-se os especialistas, são encontrados os contatos com atores poderosos, controlado o acesso a recursos escassos, construídas as coalizões, cooptados ou neutralizados os oponentes etc. (PFEFFER; SALANCICK, 1974).

Outro aspecto importante na análise do poder na universidade é sua disfunção causada em conseqüência do excesso divisional da estrutura e de poderes paralelos que emergem no interior da organização (VIEIRA e VIEIRA, 2004). Essa característica faz surgir lideranças a cada momento, o que requer do gestor uma análise permanente dos movimentos internos da instituição. As características dessas lideranças são variáveis, podendo ir de um líder oposicionista cujo interesse é assumir o poder representado pela estrutura formal, derrotando quem está nele, até a de um ator organizacional com autoridade acadêmica e/ou técnica capaz de influenciar na interpretação do contexto e nos processos de decisão estratégica dos dirigentes da universidade.

Uma conceituação inicial de liderança que se próxima da realidade da organização universitária pode ser encontrada em Hall (2004), quando ele, fundamentado em Etzioni (1965), a define como:

Uma forma especial de poder […] baseada nas qualidades pessoais do líder, para incentivar a concordância voluntária dos seguidores em uma ampla variedade de assuntos. Liderança se distingue do conceito de poder por acarretar influência, isto é, mudança de preferências, ao passo que o poder implica somente que as preferências dos subordinados são mantidas suspensas. Sob este ponto de vista, a liderança é atribuída ao indivíduo por seus seguidores, e não necessariamente por ocupar uma determinada posição hierárquica (HALL, 2004, p.. 127).

Porém, ser reconhecido por seus pares em razão de sua competência acadêmica e administrativa não garante que possa exercer sua liderança com tranquilidade. É preciso também saber manejar o “jogo político” interno e externo, e esta é uma capacidade (ou será habilidade?) que o líder não aprende na escola, mas refletindo permanentemente sobre o dia a dia da instituição, analisando os discursos e os movimentos dos agentes ou grupos de agentes e aprendendo com os erros e os acertos de suas tomadas de decisões anteriores.

A questão central é que se houver predominância do político sobre o técnico, irão predominar métodos de cooptação que tendem a não privilegiar a competência e a autonomia, mas o conchavo e a conformidade. Há muito disso em todas as organizações públicas. Basta lembrar a organização “Correios” de alguns anos atrás e a atual perda de legitimidade que vem enfrentando.

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From → Administração

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