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Crise de competência profissional e na formação profissional

19/09/2011

Há muito tempo, a sociedade, de um modo geral, vem acumulando graus de desconfiança em relação à competência dos profissionais aos quais,  esta mesma sociedade, por meio de suas instituições e regulamentos, concede o privilégio de atendê-la em suas necessidades.

Em nossa cidade, nos últimos meses, alguns exemplos de decisões e comportamentos profissionais equivocados chamaram a atenção da população. A queda de um prédio de 30 andares por erros no projeto estrutural; o atendimento médico (ou não atendimento!) à mulher grávida de duas crianças na Santa Casa de ‘Misericórdia’ (??); os seguidos casos de encarceramento de menores juntos a presos comuns; os resultados dos alunos de escolas públicas e privadas em processos de avaliação da educação nacional; os níveis baixíssimos de aprovação dos bacharéis em direito no Exame da Ordem dos Advogados, entre outros, têm levado, por parte de segmentos da sociedade, ao questionamento da legitimidade das instituições públicas e privadas, incluindo as responsáveis pela formação dos profissionais.

Ou seja, a crise de confiança na competência profissional acentua a crise na própria educação profissional. Esta, por sua vez, destaca as críticas ao processo de ensino-aprendizagem desenvolvido nas instituições de educação superior, principalmente, a grande dificuldade em associar nos currículos dos cursos os conhecimentos teóricos às competências práticas. Surge daí a concepção de que as escolas possuem grandes dificuldades em ensinar os rudimentos da prática ética e efetiva.

No cerne da questão é provável que esteja o modelo de instituição superior adotado no Brasil e em grande parte do restante do mundo. Um modelo no qual a pesquisa científica adquire valor central. Assim, mesmo instituições sem nenhuma condição de desenvolver projetos de pesquisa sólidos fundamentam seu currículo de graduação na pesquisa científica e seus métodos. Cria-se uma hierarquia de conhecimento: ciência básica, ciência aplicada e habilidades técnicas e prática cotidiana.

Analise-se o exemplo do curso de bacharelado em direito. Após exautivas disciplinas básicas e de formação específica que demandam 80% do currículo, os alunos são inseridos na prática. Mas, é uma prática entre aspas, porque quase sempre não supervisionada, em situações que replicam áreas de atuação bastante limitadas.

Lembro também, quando Reitor, dos estudantes de medicina reclamando seguidas vezes da prática oferecida no curso da UEPA. Possuíam um argumento que sempre me desarmava: estavam saindo do curso sem nunca terem realizado e, muitas vezes observado, um parto natural. Entretanto, esses mesmos alunos eram capazes de obter a média máxima no Trabalho de Conclusão do Curso (TCC).

É fundamental salientar que não sou contrário à pesquisa nas IES, ao contrário, considero-a essencial para que o estudante possa produzir o seu próprio conhecimento a partir da análise dos problemas da realidade. Não se trata de formar executantes nem técnicos com autonomia limitada. A questão é não perder de vista como a pesquisa se insere na formação das competências necessárias para o profissional atuar na prática, “com autonomia para organizar o próprio trabalho”.

Há necessidade de mudar pressupostos pedagógicos. A ênfase, conforme John Dewey já afirmava há quase 70 anos, deve ser posta na aprendizagem por meio do fazer, “a disciplina primeira ou inicial”.

“Os estudantes aprendem por meio do fazer ou da performance, na qual eles buscam tornar-se especialistas, e são ajudados nisso por profissionais que  os iniciam nas tradições da prática. Os costumes, métodos e padrões de trabalho da vocação constituem uma tradição (…) e a iniciação das tradições é o meio através do qual as forças dos aprendizes são liberadas e dirigidas. Ao estudante, não se pode instruir. Ele tem que enxergar por si próprio e à sua maneira, as relações entre meios e métodos empregados e resultados atingidos. Ninguém mais pode ver por ele, e ele não poderá ver apenas ‘falando-se’ a ele, mesmo que o falar correto possa guiar seu olhar e ajudá-lo a ver o que ele precisa ver” (apud SCHON, 2000, p. 25).

A grande questão é que essa nova forma de ensino-aprendizagem requer tempo, recursos e muito mais disponibilidade dos professores e dos alunos. É muito mais fácil para o professor pegar um power-point já elaborado e transmitir determinadas informações aos alunos do que, a cada aula, envolver-se por caminhos de ensino que exigirão conhecimentos, criatividade e improvisos. Para o aluno, assistir uma aula sem ter muito trabalho para refletir, mas apenas assimilar informações, e a garantia de uma matéria fixa para estudar para as provas parece ser um caminho mais fácil para obter o diploma ao final do curso.

É possível mudar? Sim. A solução é igual para todas as instituições? Não. É possível implantar esses novos pressupostos em todas as instituições de ensino? Não. O que é necessário para a implantação? Tomada de decisão e envolvimento dos gestores das IES, preparação dos professores, mudanças nos projetos dos cursos, mudança na mentalidades dos estudantes, maior envolvimento das IES com o entorno, a formação de redes de instituições envolvidas em processos de formação (inclusive concorrentes, no caso das privadas), e muita análise sobre a epistemologia da formação profissional.

Recomendo sobre esse assunto a obra de Donald A. Schon, ‘Educando um profissional reflexivo’, editada pela Artmed.

Pretendo escrever outros posts sobre essa temática.

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