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Modelos de incerteza ambiental e o uso de técnica de cenários

28/09/2011

Como escrevo muito sobre a complexidade das organizações, o que implica analisá-la não apenas internamente, mas também os elementos do contexto que interferem em seu funcionamento, achei interessante resgatar algumas das idéias de Carlos Matus sobre técnica de cenários e os níveis de incerteza do ambiente.

Matus era um positivista, considerava que, mesmo imersos em alto grau de incerteza os problemas organizacionais podem ser analisados o mais próximo possível da racionalidade. Apesar de achar que existem limitações em seu método (como em qualquer outro), considero o seu modelo de análise dos problemas um dos melhores que já tomei conhecimento.

Elaborei o texto abaixo apenas sobre um dos aspectos de sua abordagem: o uso da técnica de cenários depende do grau de incerteza da situação a ser analisada.

No ambiente cada vez mais complexo que as empresas, organizações governamentais e instituições diversas estão imersas no mundo moderno, o uso de técnicas que contribuam para melhor entender aspectos dessa complexidade tornam-se ferramentas administrativas fundamentais.

A técnica de cenários foi desenvolvida na década de 50 pelo Exército dos Estados Unidos e desde então vem sendo aperfeiçoada no intuito de diminuir as incertezas do ambiente. Para Coral et al. (2008, p. 108) “um cenário é a construção de uma situação futura e dos acontecimentos que a definem a partir do quadro atual”.

Para compreender melhor o seu uso torna-se necessário compreender o grau de incerteza encontrado nos ambientes e em que grau a técnica deve ser utilizada quando da realização do planejamento estratégico.

Carlos Matus, economista chileno formulador do Método de Planejamento Estratégico Situacional (PES)  desenvolveu quatro modelos epistemológicos para analisar o grau de incerteza encontrado no ambiente. Nesse sentido, a realidade pode ser muito simples, como no caso do modelo determinístico, ou muito complexa, como no caso do modelo denominado incerteza dura (Figura 1). A explicação sobre cada modelo foi dada em entrevista para Franco Huertas (1996).

Para Matus, o modelo determinístico “tem um só passado, um só futuro e seguem leis que, uma vez conhecidas, permitem um cálculo de predição pura, certo e seguro sobre o futuro” (HUERTAS, 1996, p. 50). O teórico dá como exemplos o relógio (um sistema que prediz com exatidão o tempo futuro), e as leis tradicionais das ciências naturais. Como nesse modelo, tudo o que queremos planejar é predizível com segurança completa não é necessário a aplicação da técnica de cenários.

O modelo II, denominado de estocástico, “são sistemas cujo desenvolvimento futuro segue leis probabilísticas objetivas bem precisas, cujo universo de possibilidades futuras é completamente enumerável” (HUERTAS, 1996, p. 54). O  exemplo típico desse modelo são as leis da herança genética de Gregório Mendel. Geralmente o planejamento estocástico requer a existência de mais de um plano possível. Ainda nessa situação a técnica de cenários não se faz necessária.

O modelo III, de incerteza qualitativa, é característica dos sistemas que seguem leis qualitativas e para os quais só é possível a previsão qualitativa.  Para Matus, segundo Huertas  (1996, p. 55), é o caso em que se pode enumerar todas as possibilidades, mas não se pode atribuir nenhuma probabilidade objetiva à elas. É o exemplo de uma partida de futebol, na qual existem três possibilidades de resultado, porém não podemos atribuir nenhuma probabilidade. Também nesse tipo de incerteza o uso da técnica de cenários é desnecessário.

A técnica de cenários é aplicada no modelo IV, nos sistemas denominados de incerteza dura. Estes são sistemas da realidade em que vivemos, aplicados á prática social e presentes diariamente nas organizações. “É um modelo que reconhece o caráter aproximado e provisório do conhecimento científico e estabelece que há uma assimetria entre passado e futuro” (HUERTAS, 1996, p. 55). Nesse caso, é possível destacar algumas possibilidades futuras, nunca todas, e não pode-se atribuir probabilidades. Exemplos característicos desse modelo são encontrados nos problemas sociais e políticos, nas mutações genéticas, no dia de amanhã de cada um de nós e no futuro da organização que participamos. Nesse modelo é que a técnica de cenários deve ser utilizada.

Referências

CORAL, E.; OGLIARI. A.; ABREU, A. F (orgs.). Gestão Integrada da Inovação: estratégia, organização e desenvolvimento de produtos. São Paulo: Atlas, 2008.

HUERTAS, Franco. Entrevista com Matus: o Método PES. São Paulo: FUNDAP, 1996.

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From → Administração

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