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Até amanhã outra vez

31/12/2011

Final de ano. Espero que este tenha sido um  bom ano para vocês. Para mim, concluí um projeto importante em minha vida e só por isso o ano já se tornou marcante. Desejo a todos um ano vindouro com muitos projetos, com erros e acertos, com alguns resultados, mas, principalmente, com muita saúde, pois sem esta não conseguimos fazer nada.

No final de ano as pessoas resolvem fazer muitas coisas que não fazem ao longo do ano, como cumprimentar as outras pessoas e ter mais educação, por exemplo. Acho que as festas de final de ano servem para que  possamos respirar, ou melhor, retomar o fôlego para poder ir em frente. Não é mais do que uma pausa de colcheia, mas faz toda a diferença. A vida não é fácil e nem sempre bela como dizia o poeta,  e de vez em quando precisamos renovar as energias.

É também o momento de refletirmos sobre o que realizamos no ano que está indo embora. Essa reflexão pode gerar angústias pelo que ficou para trás, pelo que deixamos de fazer, mas é necessária para que possamos acertar os próximos passos de nossa caminhada.

Cada um comemora a seu modo. Gosto de estar com Priscilla, Fernando e minha família. Esta não é grande, então, as coisas são mais calmas. Mas, aprecio que seja assim.

Vou encerrar o ano com uma crônica de Nélida Piñon denominada “Até amanhã, outra vez”.

Estou em Key West, pequena cidade da Flórida, cercada de águas atlânticas e do Golfo do México. De geografia e de espírito cosmopolita, onde a vida arfa com intensidade e desarma a aspereza do cotidiano.

Sob a ameaça progressiva dos ponteiros, acelero os passos, devoro desatenta a paisagem e as vitrines. Não posso atrasar-me. Tenho um encontro com o sol, em Mallory Square. Ele jamais me perdoaria a impontualidade. Afinal, é um cavalheiro que há milhões de milênios,sempre à mesma hora, ilumina a vida dos homens.

E, depois, eu viera a esta cidade especialmente para registrar com a alma e a memória um dos belos poentes da América. E o espetáculo estava prestes a começar. O sol, ator principal, não esperaria por mim, chegara sua hora de mergulhar na solidão dramática do horizonte.

As ruas regurgitavam de mulhres e de homens ansiosos por participar de um ato que se repetia desde a inauguração da terra. Quando o homem, a cada ocaso, sob o assombro da escuridão e dos perigos, mergulhava em indescritível terror. Do qual não se livrava nem com o sono, pois a memória acumulava agonias que cediam unicamente ao nascente.

Chego a Mallory Square, o pequeno porto de onde o mar estende-se, trazida por uma emoção herdada de meus ancestrais, que padeceram no passado do estupor de ser, a cada anoitecer, abandonados pelo sol. E que, sob tal ameaça, tentava detê-lo. Pediam-lhe, com gestos inúteis, que ficasse um pouco mais entre os homens, que gelavam de frio e solidão. Devia ele ao menos jurar que não esqueceria o caminho de volta para casa, onde acolheria os ruídos da alvorada dos homes.

A fauna humana, onde a minha misericórdia se retrai, compunha-se de turistas, vagabundos, vilãos, artistas, rufiões. Mas como posso definir suas vidas sem incorrer em graves falhas? Sem lhes atribuir o que, de verdade, levo eu no coração? Visto-me com cores discretas, escolhidas ao acaso. Empalideço-me ante a exuberância alheia que passeia pelo cais da esperança, a desafiar o sol com a algaravia das das despedidas humanas. Tão tristes e frívolas ao mesmo tempo.

Os artistas, que perambulam pela cidade, cumprem seu ofício em troca de moedas. Eles vendem e leiloam misérias. Como que saídos de feiras medievais, orgulham-se de resistir aos avanços tecnológicos, sempre excludentes e impiedosos. Para eles, tristes figuras, o lar é a estrada. Cantam com voz rascante, afinam os instrumentos junto à nossa carne. Ameaçam a nossa timidez, que verga infeliz sob o acúmulo dos gestos convencionais.

O sol, naquela quinta-feira, excede-se no ritual da despedida. Como um jovem arrebatado, ele despeja vermelhos, raios oxidados, setas amarelas. Inspira emoções que liberam aplausos, gritos. Adeus, sol, farewell, até breve.

O sol míngua ante nossa angústia. Vejo a fatia reduzida, última, do seu ser que se extingue. As luzes acabam de acender em Mallory Square. É noite outra vez. Nas ruas e no desconsolado coração do homem.

Um feliz ano de 2012 para todos nós.

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